domingo, 5 de fevereiro de 2017

Depoimentos sobre o projeto TOQUE

Participei da série de autorretratos durante a oficina que aconteceu em outubro de 2016, no Museu de Saúde Pública Emílio Ribas, em São Paulo. Foi um exercício raro, inquietante... De pronto me perguntei se haveria um espelho por perto para “tirar informações” sobre o rosto que eu queria reproduzir com papel e cola – o meu rosto. Mas o toque das minhas mãos era reticente, não era bom informante...
O autorretrato foi saindo sem uma descrição fidedigna do que eu julgava encontrar. As mãos tateavam no rosto e outras, dentro de mim, tateavam no escuro. De que recursos, afinal, eu poderia dispor para contar quem sou eu? E fui percebendo o quanto dependemos das imagens que as lentes alheias a nosso corpo fazem de nós.
Ao mesmo tempo, havia a relação com as pessoas ao redor, que também faziam seus autorretratos, e algumas perguntavam às outras se realmente pareciam com os rostos que iam modelando. Outras atentavam num olhar demorado sobre o que tinham criado. Com o tempo, olhávamo-nos mutuamente, uns para os rostos dos outros, buscando significados, mais do que semelhanças entre o real e a “cópia”. Seria isso mesmo? Emoções são “significáveis”? Um estado psicológico é assimilável pelo toque e depois pode ser transposto e lido no rosto recriado pela arte?
Fiquei pensando também na multidão destes rostos, no que ela pode expressar coletivamente diante do que nos afeta quando criamos sob esta proposta do autorretrato. São tantas as variáveis nesse caso e ainda mais difíceis de sondar, mesmo entendendo que o autorretrato deu, pelo menos para mim, observações e detalhes que antes me escapavam diante das imagens passageiras que não “me registram” (não me revelam) porque escorrem do cotidiano, longe da pele, longe do toque. 

José Manoel Rodrigues- co-autor de TOQUE



A instalação TOQUE vai se construindo como um jogo lúdico. A  composição do trabalho enfatiza essa ideia: peças colocadas lado a lado, ora sugerem continuidade,  ora apresentam vazios que fazem respirar o conjunto, equilibrando a densidade que cada relevo carrega consigo.  
Os participantes do projeto tem uma experiência palpável, direta,  de autoconhecimento, muito além do "mirar-se no espelho".  Ao construírem um alto-relevo de sua face, vivenciam um momento único de percepção e de encontro consigo mesmos.  A pessoa, que já tem uma imagem  pré-concebida de si, tem que concretizá-la. Em geral,  percebe-se aí um conflito entre o que se vê e sente, por um lado, e a representação, realizada através de uma intensa experiência tátil, na qual as mãos dobram,  amassam, comprimem a matéria, que se torna singular nos diferentes autorretratos. Cada um busca, à sua maneira,  construir traços marcantes que o identifiquem.  Isso dá à instalação imensa riqueza de formas,  texturas, linhas.
É interessante observar o olhar curioso, de surpresa, de muitos colaboradores do projeto, ao verem a instalação montada: uma certa perplexidade, ao mesmo tempo em que buscam identificar seu autorretrato em meio à uma tipologia  humana tão semelhante entre si, mas tão diversa também. Cria-se aí  um novo jogo - entre o criador do fragmento individual e o criador do conjunto coletivo.
Concomitantemente, ao passar pela exposição Mais que Humanos - Arte no Juquery,  apresentada na sala ao lado, sente-se a carga emocional contida nas peças. Cada criador representa com materiais diferentes - pintura, argila - um pouco de seu universo imagético. Porque não dizer: nessa mostra, cada peça constitui também um autorretrato, simbólico. Descortina-se um outro jogo. Agora, entre dois conjuntos diversos  - TOQUE e Mais Que Humanos. Ambos nos falam da infinita capacidade  do ser humano e de sua busca por satisfazer necessidades vitais de expressão e comunicação com seu entorno, com seu semelhante.

Lúcia Neto - co-autora de TOQUE 



Toque-me!

Ao entrar na sala, as paredes tomadas estão por um painel branco, contínuo, como um mapa em relevo. Os módulos quadrados que o compõe, após o primeiro impacto, se misturam em uma geografia desconhecida e algo familiar. Mais de perto, revelam uma sucessão de retratos sem que lhes sejam atribuídas as autorias. Rostos nos mais inusitados ângulos, de gente que nunca pôs a mão na massa, de gente que nunca tirou a mão dela. O resultado é de um lirismo arrebatador, de uma intensidade surpreendente.

E então estamos todos lá – os que fizemos os autorretratos numa manhã no ateliê –, reunidos e à procura de nós mesmos. E vamos atrás dos retratos dos outros, primeiro dos que conhecemos, depois daqueles que nos surpreenderam, e aí notamos entre uns e outros avizinhados uma curiosa relação de transição. Passamos a mão e sentimos as texturas. A mágica se consuma, estamos tomados pela experiência. E saímos vitalizados. Não sei o porquê da arte, mas sei o que me traz até ela.   

Sergio Kon - co-autor e articulador de oficina de  TOQUE em seu atelier, São Paulo, SP




Participar do projeto “Toque” é gratificante e estimulante. Realizar a peça com papel e cola, expressando o autorretrato, é a marca da criação singular de cada participante. Da expressão individual sendo exposta na construção do todo, pode-se perceber o “elo humano”, que representa toda e qualquer comunidade, ou seja, transmite a essência dos povos, sem preconceitos e distinção de raças.
A coordenação do projeto soube muito bem propor, aliar e distribuir as peças no contexto compositivo, valorizando cada obra em favor do conjunto. O projeto “Toque” representa a solidariedade, a harmonia e o potencial humano. É um importante exemplo de apresentação estética que surgiu da mais profunda reflexão de cada participante sobre si, para representar a sociedade em que vivemos.

 Paulo Cheida Sans - co-autor e articulador de ficina de TOQUE - Grupo Olho Latino, Campinas, SP




Minha participação no projeto TOQUE foi muito rica e compensadora. Para mim, como pessoa com mobilidade radicalmente reduzida, foi um desafio produzir um objeto tridimensional. Diante dessa dificuldade, contei com a ajuda de um aluno meu de arquitetura, Roberto Nepomuceno,  que também realizou seu autorretrato para a instalação. Pensamos numa construção em curvas de nível (sistema de representação do espaço no plano, utilizado comumente em mapas). A partir de um desenho, Roberto foi construindo uma imagem do meu rosto em níveis de altura diferenciados. Outros alunos meus participaram também de TOQUE.
Achei o resultado muito interessante, pois me enxergo nele. Além disso, valorizo a  interação que possibilitou a  produção desse trabalho, da mesma forma que valorizo outras interações artísticas, realizadas em projetos anteriores, como VI(VER) Diálogo Gráfico (no qual dividi curadoria com Hélio Schonmann e Francisco Maringelli). Nesse projeto, um grupo de colegas desenhou comigo pessoas  sem visão que desejavam ser retratadas (trabalho exposto  no Museu Histórico e Cultural de Jundiaí, em 2014).  Vejo no projeto  TOQUE um caminho que pensa a diversidade e a inclusão. Um caminho muito oportuno.


Paulo Pt Barreto - é co-autor e articulador de oficina de TOQUE no Centro Universitário SENAC, São Paulo, SP



A oficina de autorretratos do projeto TOQUE, orientada por mim, no espaço Cecco Bacuri, foi especial.  Houve uma participação contagiante.
Na visita  que fizemos com o grupo  à instalação montada no Museu Emílio Ribas,  o reconhecimento de cada trabalho e  a percepção da beleza do conjunto trouxeram mais alegria ainda a seus autores.

Altina Felício - co-autora e articuladora de oficina de TOQUE no CECCO - Centro de Convivência Cooperativa Eduardo Leite Bacuria - São Paulo, SP



Como uma folha em branco nos dirigimos a uma aula diferente naquela manhã, tendo como expectativa receber informações e transformá-las em aprendizados. No primeiro momento, ao adentrarmos no espaço, com a obra TOQUE, fomos “tocados” por nossos múltiplos sentidos.
Entramos numa sala branca cheia de texturas nas paredes, a curiosidade nos tomou, bem como o desejo quase irresistível de ir colocando as mãos.
As obras incrivelmente sugestivas, nos convidavam à uma experimentação que vai além da contemplação passiva, com seus relevos possibilitavam o sentir com o corpo, o tatear, um vivenciar que vai além da análise cognitiva.  As variações de texturas, o conjunto das faces que se movimentam, tudo causava calor e acolhimento.
Antes, porém, orientados pela professora Lilian, tínhamos o convite de colocar as mãos no corpo do amigo ao nosso lado. Uma vivência sensorial transferida para nossa psique estimulada manualmente.
- Que nervoso! Como se faz isso? Colocar nossas mãos em outra pessoa?
Toque, me toque, te toco, toquemo-nos... Nos alertou para uma experiência que parecia romper barreiras entre as expressões e produções idealizadas por artistas e não artistas. Em decorrência disso era válido reconhecê-las como obras de arte, ali presentes no Emílio Ribas.
As múltiplas faces na parede, as diferentes expressões, fazendo-nos lembrar de que somos um “multiverso” de gente, biologicamente distintos, diversos por natureza, infinitamente diversos.


 Ana Maria R. de C. Bertolini
Estelita Thiele
Fernando Alexandre
Mariana Ávila Dutra
Sandra Almeida Godinho

Alunos do programa de pós-graduação do Instituto de Artes da UNESP – arte e terapias expressivas 2016 – Profª. Drª. Lilian Amaral e Profª. Mr. Vânia Rodrigues




Ao visitar a exposição TOQUE pela primeira vez fiquei encantada em ver como a arte pode ser expressiva e interativa, com o poder de tocar a alma. Ver cada rosto, cada expressão, ter a possibilidade de me conectar com a obra através do toque, experenciando as texturas e formatos foi muito enriquecedor.
Quando descobri que uma técnica simples e de baixo custo poderia resultar em algo tão expressivo, logo pensei nos usuários do CAPS onde trabalho e senti o desejo de aproximá-los desta experiência também. A maioria das pessoas atendidas nunca foram ao museu por exemplo, nem sequer conhecem outros lugares além Salto de Pirapora e as cidades vizinhas. Além disto, o serviço é o responsável por cuidar de 40 pessoas oriundas de longas internações psiquiátricas e o único contato que tiveram com algum tipo de arte foi no hospital.
É importante destacar que o município de Salto de Pirapora e região é alvo de intervenção dos governos estadual e federal após denúncias de violação de direitos humanos em vários hospitais psiquiátricos destas cidades. Após o termo de ajuste de conduta definido com o município, foram inaugurados dois CAPS para atender os casos de transtornos mentais, inclusive para apoiar e conduzir a reinserção das pessoas desospitalizadas.
Diante deste contexto, tenho buscado usar a arte nas atividades desenvolvidas no CAPS como instrumento de liberdade, expressão e autoconhecimento. Por isso, iniciei com 6 destes usuários a confecção de autorretratos, todos eles oriundos de longo período de internação psiquiátrica e que vivem em residências terapêuticas atualmente. Os encontros são realizados semanalmente, no período de 1 hora. Além da confecção das máscaras, conversamos sobre o corpo, com suas cicatrizes e histórias. Falamos de autocuidado, das descobertas trazidas pela experiência no “mundo de fora”.
Foi realmente desafiador iniciar o grupo e mantê-los conectados e envolvidos com a proposta. Todos eles saíram recentemente do hospital e estão num processo de adaptação. Alterações medicamentosas, gerenciamento do próprio dinheiro, sexualidade, família, a descoberta da própria subjetividade, gostos e preferências, e o contato com a própria história tem sido alguns dos desafios. Além do agravo cognitivo e alterações de comportamento e pensamento decorrentes do quadro clínico de cada um.


Fernanda Rodrigues Vieira - co-atora e articuladora de oficina de TOQUE no Centro de Atenção Psicossocial II de Salto de Pirapora, SP




A sala que expõe a mostra TOQUE pode parecer intimidadora ao visitante, que até ao ler na entrada “por favor, toque”, ainda se sente tímido em fazê-lo. Estimulamos o visitante a tocar; a interagir com a obra e consigo mesmo, sentir-se e sentir. Neste exercício simples, notamos a profundidade de um ato tão corriqueiro que muitas vezes nos passa despercebido: o toque.

Rodrigo Galvão – co-autor  de TOQUE e educador do Museu Emílio Ribas




Na mostra Toque buscamos fazer com que os grupos refletissem a partir da exploração sensorial sobre as suas identidades individual e coletiva, bem como a respeito do estatuto da arte e do artista. O que nos proporcionou diferentes momentos com os visitantes, que nos transportaram e convidaram para as suas confissões, sensibilidades e intimidades. São sempre experiências únicas e mágicas.


Yuri Pinto de Souza –  co-autor  de TOQUE e educador do Museu Emílio Ribas



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